O dia chegou

Janeiro 20, 2009

        20 de janeiro. O que de tão importante esse dia nos guarda? O verão em seu auge atrapalha o desenrolar da ordinária rotina, cola costas no banco do onibus, impede o sono; e a chuva que nos deveria servir de refresco e descanso, apenas nos é como mais uma questão mal resolvida no planejamento da cidade e nas políticas desconexas. O mundo, mais uma vez leigo, se alegra com uma trégua desigual na fabulosa Gaza. Onde o cessar-fogo se faz nos intervalos das cargas bélicas recebidas de braços abertos pela população da pequena faixa, que chora ao ver seu plano maquiavélico tomar rumos incertos – quando sua casa, berço dos atiradores, é tida como esconderijo ou trancheira de guerra infantil. O que há de tão grandioso no dia 20 se o mundo parece continuar seu plano natural, no laissez faire, laissez passer sem pausa?

        A poderosa imprensa, hoje soberana como Médici temia, toma seus horários e  com isso a mente da população ignorante e volúvel, com um novo rosto para um novo mundo, num chamado tempo de mudança. Até mesmo as alas da mais ferrenha oposição aos governos – MTV e canais de vanguarda -, que sempre pregaram o anarquismo e o comunismo – mascarado paz e amor -, bate no peito e se orgulha de ter feito parte, ou simplesmente por existir, no movimento Yes, we can!

        Um novo mundo ou meramente mais uma ilusão da mídia por tal utopia.

Outro governante, uma nova cor; será uma nova linhagem sagrada dos Lincolns?

        Obama conseguiu o que nenhum outro jamais chegou perto de conseguir. Até mesmo nosso pequeno duende guerrilheiro do Planalto conseguiu tal feito. Ele mobilizou o mundo inteiro, minado pela cultura podre de uma falsa paz, integração surreal e mediocre, chegou ao pobre e ao rico – burguês e operário, como a esquerda adora enquadrar -, sem precisar seque mostrar seus documentos de natureza incerta, protegidos por seus advogados. Cativou os irmãos da raça, revelando ao bom entendedor, que a segregação existe de fato em qualquer parte, e cada vez mais se assevera. Ao escolher alianças de cor no lugar de alianças por políticas em comum – irrelevante o pigmento da platéia – deixa evidente sua insegurança perante o humano qualquer. Quantos artistas negros firmaram campanha para Obama? Até mesmo Oprah, que sempre se declarou feminista ao extremo, deixou a companheira de banheiro Hillary pela força da raça. Se acaso tal ponto fosse falso, por que teria ele aceitado ser chamado de o primeiro presidente negro. O fato de ser negro, realmente importa?

        Será mesmo um novo mundo que se inicia no dia 20. A final ascenção de um mito vivo ao poder global, levará o mundo ao lugar certo? Ou deveria Obama, em seu subconsciente, desejar uma tragédia como a de Kennedy? Visto que a força de seu nome, do mito, da imagem de um novo Cristo que se formou à sua sombra, é mais poderosa do que seu governo, repleto de incoerências e jogos, poderá ser. Nem o mais impecável governo chega aos pés do poder de um mito. 

        Obama sabe bem disso. Ele não é tolo, chegou onde está por próprio mérito, por mérito de sua demagogia cantada nas rádios. Sabe que mais vale ser o mito do que mais um presidente fracassado.

        A verdade, ao poucos, se revelará ao chegar à Casa Branca. O renegado conseguiu a brecha e chegou onde grandes homens jamais chegaram. Sua honra e poder serão postos à prova, mas não espere críticas na mídia mundial.

 

        Um mito fica pra sempre na simpatia do mundo, sem precisar provar suas habilidades. Obama terá a chance de se sacrificar em nome da causa. Teria ele compromisso suficiente? Teria mesmo Cristo um bom reinado se conquistasse o poder de Jerusalém?

 

        O dia está chegando, uma cor berrada ao mundo fará tanta diferença? Afinal, não somos todos iguais?

 

        O carnaval está chegando. Já é fevereiro?

 

 

 

 Obrigado,

I. A. M. Lourenço

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