Futuro com estas leis?

Setembro 22, 2008

Hoje posso dizer: Já fui assaltado.

         Lembram-se daquela campanha antiga que até hoje não vejo fundamento, que as pessoas colavam o adeviso no carro, e desfilavam pelos corredores de tráfego da cidade e só. E no que deu tudo isso? O que de fato mudou, acaso melhorou em algum quesito nossa vida na velha Paulicéia desvairada, e cada vez mais tomada pelos que não a merecem? Pois bem, no meu caso post-it-iria minha testa e nuca.

         Pouco tempo atrás, um novo dilema, mais um giro da mídia sobre o que deveria, mas não quer falar. Mais uma ladainha dos ditos direitos humanos, que de nada valem se escolhem proteger bandidos à civis honestos.

         “Não dê esmola, dê futuro”, foi exatamente isso que fiz na última quinta, no ponto de ônibus frente a estação da Luz, numa região cada vez mais decadente. Seja lá qual for a idéia de nossos governantes da chamada novaLuz, que até agora só revelou áreas demolidas, que daqui a pouco se tornarão favelas, ou pracinhas-pinico para mendigos.

         Foi quando dois meninos com seus cobertores da cabeça ao chão me abordaram. Eram negros – digo logo sem medo, para evitar a vergonha que muitos têm por perguntar a dita cor dos delinquêntes. Não direi que eram crianças, pois não agiram como tal. Em minha infância não saía com facão na rua atormentando a vida de desconhecidos. Criança é a alegria da família, futuro do mundo; estes aí são na verdade a vergonha de um país de leis torpes.

         “Aí moleque, dá um real” em claro tom de superioridade. Quanto engano.

         Já recuado, fiz como que não tivesse dinheiro algum, como todos sempre fazemos no farol ou ao caminhar na praça da Sé. Pois insaciáveis, começaram a me ameaçar com um facão e pediam enfurecidamente: “o aparelho…o aparelho”, bateram na minha perna direita, onde havia uma certa saliência aparente, fiz o que pediram e entreguei-lhes o conteúdo: um rolinho de papel higiênico que estava no bolso. Estou resfriado também, pra melhorar ainda mais minha situação.

         Ficavam cada vez mais agressivos, bateram no outro bolso, onde deveras estava o celular, “é o meu aparelho de asma”. Pareciam não ouvir nada. Daí pra frente já não lembro muitos detalhes nem a ordem dos fatos. Entreguei dinheiro à eles; uns 20 e tanto reais. Fui indo pra rua. A faca quase me furou, me protegi com a mão, que hoje arde pelo corte. Eles fugiram.

         Meus ‘companheiros’ de ponto, que na hora da aflição sumiram, me incentivaram a correr atrás de meu dinheiro. Mas eu não queria, não precisava dele. Foi quando na esquina os vi sendo abordados por policiais, ou seguranças, sei lá.

         Como eles apanharam, eles relutavam como se estivessem possuídos, mas isso não amedrontava os fortes gajos que quase quebravam todos os ossos dos MOLEQUES – os denomino desta forma ao pé da lenda, vez que mereciam ser postos em sacrifício, enquanto os outros dançavam em volta deles louvando ao Deus Moloque, rarará. Que se danem os direitos humanos, quase mataram os marginais. Pena que não o fizeram; só não chegaram a tanto pois outros membros da classe deles, agora adultos, começaram a defendê-los, até chegaram a declarar que os conheciam, mas quando viram a faca que portavam também sairam correndo. Neste momento, uma multidão havia se formado na esquina, foi quando conversei com uma quase vítima deles. Um japonezinho que saía do cursinho perto da Sala São Paulo; ao ser abordado saiu correndo. Por fim, os policiais me chamaram e fui com eles até o posto dois quarteirões adentro da cracolândia. Depois de muitos minutos, eles me instruíram sobre o sistema. Ambos os infratores se auto-declararam 9 e 10 anos. Pois então sequer iriam para a Febem – ou Fundação Casa – pois ainda não tinham idade para isso, no caso deles iriam para tipo uma creche, nesta qual podiam sair a hora que quisessem. O mais velho chegou a se contradizer, declarou que não queria voltar para cadeia, era foragido, quem sabe. 

         Perguntei aos policiais – um parabéns à eles pela simpatia e presteza – como iriam provar as idades. Como não moro nem somos os states – e cada vez mais nos distanciamos do objetivo – não temos sistema de digitais eficiente. Deixaram claro que seria preciso fazer o levantamento sobre os pais – pois pergunto: Quem foi que os ensinou tudo sobre o sistema? Ao menos em meu ensino público nunca tive aula de como assaltar um pedestre.

         Por fim, em consenso geral, foi mais viável deixá-los ir, poucos minutos antes de me liberarem.

         “Libera nois ae… que vamu assaltáno Guaianazes”, essa foi a promessa que fizeram aos policias, que inevitávelmente riram.

         Engraçado existir zilhões de cartilhas de direitos das crianças e adolescentes, mas não cumprimento de deveres, de punições. Não há como retirar esses bandidos das ruas. Eles podiam ter me matado e como teria acabado a história? Do exato mesmo jeito, só que com um pouco de sangue na calçada da estação. Mas a história em si não foi esta. Algo me salvou, seja Deus, destino ou o que for. Ou tudo seja o mesmo. Obrigado.

         Com nove anos eles podem roubar, matar e o que mais quiserem. Podem tudo impunes. Se existe capacidade tamanha de crime na cabecinha deles, então podem muito bem, responder judicialente assim como qualquer outro criminoso.

         Porém sei que mesmo se um dia um projeto de lei se levantar, senhoras desvairadas levantarão bandeiras para acudí-los. Quem sabe mudem de idéia quando sentirem o aço estourando as entranhas delas. Tá com dó? Leva pra casa dona!  Acredito que o intelecto dos trombadinhas da faca seja o mesmo do indivíduo que uma semana atrás ‘arrebatou’ o celular de minha irmã em plena avenida Paulista. Afinal em nossos tempos uma reforma – que em suma já é uma cicatriz no simbolismo do postal – adequando a calçada mais movimentada da cidade para stilletos, scarpins e cadeiras de rodas se torne pista de skate e outras rodas facilitando diversos crimes, como o de minha irmã, que viu seu direito de falar no celular rompido. Num puxão, a voz se emudeceu.

         Primeiro assalto, primeiro enfronte nas ruas de São Paulo. Onde nem o frio consegue afugentar mentes podres. Mas fazer o quê? É o preço de se viver na segunda maior cidade do mundo, onde o cinturão cada vez mais se afivela sob votos e genialidades debéis.

         Não me prolongarei mais neste assunto, pois creio poucos irão se interessar em perder horas lendo extensos – bem extensos – ensaios, vez que temas como este acarretam outros e se derivam de outros poucos questionamentos acerca de nosso país. O mal da raiz está bem distante dos becos do centro velho.

         Quem sabe um dia revelarei este segredo. Que está no ar para qualquer um que tenha um pouco de coragem, nenhuma lucidez e muita tolice.

 

 

Obrigado

Isaac Lourenço – agora como mais um membro da sociedade -

         ps.: muitos corajosos zoaram, outros muitos tiveram receio. Mas só pra constar; não fui pra cima dos moleques vez que minha altura é praticamente a deles. Rarará.   

[.]

2 Respostas para “Futuro com estas leis?”

  1. eu disse

    rarararararraraaa! do mesmo tamanho!
    caro colega, sinto por vc, mas nao se pode nem chegar aos vinte sem antes passar pelo batismo de sangue dos assaltantes.
    bom eu..vc sabe foi aos 17.
    Todos temos q passar..isso é uma realidade!
    Felizmente ou nao vc passou, parabenizo vossa coragem!
    (*nem pra me ligar?!)

  2. marcos disse

    caro colega,infelismente a realidade e essa tambem passei por esse batismo e nao faz uma semana,fui vitima de saida de banco,sou casado e tenho uma filha pequena para cuidar,agora desempregado tive a nescessidade de sacar meu tempo de trabalho para
    pagar algumas dividas e comprar alguma roupa para minha mulher e minha filha,e comprar o que comer.
    mais como eu disse que a realidade hoje em dia e essa,mais o que a gente assiste na tv acha que nao vai acontecer com a gente,ta ai fui roubado sem do e se reagir ja viu vira po.
    so imagino esses marginais tendo uma overdose fulminante ou uma morte bem rapida,pois nesse dia que fui roubado so eu pude ver no olhar de minha filha de 5 anos a tristeza de esperar o pai chegar com o presente prometido que infelismente foi levado pelo crime.
    e meu amigo,nosso pais mais nem deus consegue amenisar a situaçao,e acredito que graças a ele ainda estou vivo e posso trabalhar para dar o presente para minha filha e ver ela crescer.

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