Em vários países, dou como exemplo Portugal, o sistema de acesso ao ensino superior é único para todas as instituições, públicas e privadas. Uma única prova ou uma série delas, de alta carga didática – ao nível de uma Fuvest – dita as notas para cada curso. No Brasil, onde para se matricular em uma faculdade paga basta derrubar o bilhete de identidade na porta, e em contrapartida, as públicas com seus vestibulares estressantes, que em nada condizem com o nível do ensino gratuito de nível médio, atenuam a desigualdade não unicamente financeira, mas também cultural e educacional. A fuvest passou, realizei a prova graças a isenção da taxa de inscrição, não tive medo, não me estressei; reconhecia a inferioridade de meu nível acadêmico, não estava a par da a matéria necessária – minha formação consistiu em tornar-me um cidadão, não em possível mestre. Ganhei fundações para a obra, em mente coesa, humana e cívica, porém não recebi entrega alguma de material para a obra, não fiz cálculos, não projetei nada. Formei-me cidadão solidário, que faz a vanguarda, reclama do governo e ajuda o mendigo; mas o potencial de líder, de empreendedor, de graduado foi ignorado. A vida não depende do vestibular, foi o que uma professora declarou. Realmente decerto não depende; Mas sem uma formação acadêmica como poderemos viver realizados? Como alcançaremos o emprego do sonhos, ou a descoberta de uma nova cura, o sucesso da empresa, o sucesso do país?  

         A criação do Exame nacional do ensino médio – Enem – meio que veio a calhar nesse processo de uniformização do acesso. Porém não foi o que de fato ocorreu desde sua primeira edição. Ignorado pelas públicas e recebido com desdém pelas particulares, foram pouquíssimas as instituições que o aceitaram. Pois bem, notada tal falha um novo antigo projeto ressurgiu, o Programa Universidade para todos – Prouni – que visa facilitar o ingresso de estudantes de classe baixa e oriundos da rede pública em boas universidades particulares. Retirando de pauta os claros defeitos, como o atestado de inferioridade aos negros e indígenas, que nos deram motivos para raiva e contravenção. Mas que seja.

         A prova do Enem realizada em agosto passado foi considerada a mais simples dos ultimos anos; e de fato foi. Digo isso lidando com a clara possibilidade em depreciar-me. Com média abaixo de setenta  - mais de oitenta na parte objetiva, porém a redação foi na contramão – foi impossível ingressar em curso algum no primeiro semestre. Então agora, após praticamente, seis meses longe dos estudos consegui a tão sonhada vaga na universidade – se assim posso chamar. Cursos do sonho foram inalcansáveis, minha redação vítima do novo sistema de correção teve seu resultado questionável. Os poucos centavos como incentivo por prova corrigida, de fato o cansaço pelas muitas horas frente ao computador, sem releituras e sem questão alguma em decifrar rabiscos digitalizados tornaram o sistema, uma vez mais, falho.

         Acessos diários ao site do MEC, disputas de notas, muitas decepções e novas portas, transformaram o programa em uma corrida de gigantes, afinal, a alegria virtual de ver sua nota dentro da margem necessária por poucos dias facilmente foi abatida a tiro por ‘oitentas’ ou apenas décimos acima. O prazo prorrogado: foi evidente o interesse do governo em que todos, desesperados pelo ensino, se inscrevessem primeiro no próximo Enem, pagando a taxa, e só depois torcessem por sua vaga. Se o prazo inicial houvesse se mantido, hoje estaria matriculado nas melhores universidades, com bom ensino, tradição, sorrisos e no curso dos sonhos.

         Minha oportunidade apareceu nos últimos minutos, curso agradável em uma faculdade – é o que importa não é mesmo? -, em período noturno – poderei trabalhar. Fiquei feliz, satisfeito por encontrar uma brecha no sistema. Irei estudar. Quem sabe me satisfarei nesta nova profissão, deixarei o sonho pra próxima vida e irei aonde conseguir sob o amparo do governo?

         Antes de comemorar é preciso se matricular, e para isso. Declarar-se ainda mais pobre do que és. Juntar os documentos de todos os membros da família, pegar outros trocentos papéis pedidos e ir até a faculdade.

         Sete horas de espera. Sete horas jogado á moscas, se sentindo em pronto socorro infantil ou na fila do INSS. Sete horas foi o tempo que foi necessário para que minha senha fosse chamada. O número dela? 58. Já sala de atendimento, onde aguardei por mais uma hora para que os primeiros ’sete cinquentas’ fossem atendidos, assisti a cenas deploráveis.

         Um jovem simples, pedreiro vestira sua melhor peça de roupa para aquele momento, a chamada entrevista. Foi recepcionado por um caloroso olhar cabo-a-rabo. A atendente, uma senhora mal vestida, com o óculos na ponta do nariz, boca torta e um ego do tamanho do seu quadril, o interrogou como uma policial. Já era a terceira vez que ela o fazia voltar ali. “Trabalho como pedreiro, minha renda é de 450 reais.” Ele não tinha registro na carteira, mas tinha comprovantes, uma declaração com firma assinada e todos os documentos solocitados na lista do governo. Nada satisfazia a mulher que parecia se sentir no farol, dando esmola para vagabundo. Esquecia-se que ela estava ali, trabalhando – o que milhares tanto desejam -, graças aos tais mendigos. Nós que deveriamos tratá-la com desrespeito, com desdém, ela de fato está trabalhando para todos os cansados, desanimados e estressados da fila.

         A bruxa – se assim posso chamá-la, para não sujar estas linhas com adjetivos, digamos, carinhosos – não se continha com documento algum que o jovem lhe dava. O comprovante de residência, que por seu nome é solicitado para a confirmação do endereço do estudante foi um dos pontos de discórdia do atendimento: “Nada disso serve. Quero o xerox da parte interna da conta - de energia elétrica – Quero ver o seu gasto. - ela duvidava que se poderia viver com tal baixo ganho – Assim como também quero seu IPTU, sua conta de água, alguns extratos de conta e uma declaração com firma assinada, de cada um dos membros de sua família.” Sem saber como se comportar, o homem simples, que provavelmente trabalhava desde sempre para dar o que comer para sua família, quem sabe com algum irmão deficiente ou seu pai de cama abaixou a cabeça e concordou. ‘Nada disso serve’,  importa para o dito controle deles. Depois quando nossos jovens encontram a esperada oportunidade nas mãos erradas, nas vielas erradas, reclamamos. O poder público reclama sem razão.

         O menino saiu com cabeça baixa, tristonho mas ainda com a eterna esperança pelo ensino, pela vida que poderá ter. Foi em busca dos papéis que não constavam na lista do MEC, não constavam na lista da faculdade. Constavam na mente confusa de uma senhora que não merecia trabalhar ali, no lugar em que muitos adorariam estar, e de boa vontade.

         Também teve o caso de um senhor, já com seus quarenta e tantos anos e ainda com fé em seu diploma, recebeu uma noticia de fato desencorajadora. Que vai contra todos os príncípios de direitos do cidadão e dever do estado. “Sua papelada está certinha. Agora você só não pode ficar rico. - risadas -Se não eu corto sua faculdade: EU POSSO; SABIA? Carismático e com o belo sotaque nordestino brincou: “Entendi, não posso melhorar de vida.”

         Ela ainda tentou disfarçar, quem sabe corrigir a péssima fala. “Não, não é isso que eu disse. Nós queremos que você melhore de vida, quem sabe arranje um emprego. Você só não pode enriquecer.” Riu sozinha.

         Outro: um jovem ofegante entrou na sala apressado. Foi até a mesma senhora da boca torta e disse que trouxe os papéis que tinha faltado. Foi enxotado.“Você não vê que eu estou ocupada. Espere sua vez.” Educado, faltou-lhe um pouco de orgulho. Só conseguiu dizer: “Desculpa. Obrigado.” Naquele momento meu número foi chamado, mas enchi-me de vontade de fazer algo, agir. Riscar o carro dela, dar-lhe um tapa na cara. Ou simplesmente sair dali.

         Infelizmente, para a bruxa, ela não me atendeu.Outra senhora também com o nariz no teto e sem o princípio de educação, não reagiu ao “Boa tarde” de minha mãe. Sem olhar em minha cara, solicitou os documentos como quem faz favor, quem só deseja ir embora e ficar o resto da tarde ‘coçando’. Todas as cópias dos documentos foram comparadas e analisadas. É claro; eu vou falsificar meu R.G. com algum nome de ‘Ronivagildo das Mercêzindas’ e levar até a minha única oportunidade de ensino. Número por número, documento por documento, foto por foto, endereço por endereço. Tudo foi analisado, senti-me sujo, imundo. Todos ali estavam se humilhando nas mãos daquelas pessoas unicamente para ter seu direito ao ensino respeitado. Ela me olhava como quem olha o aterro e acha uma criança brincando nele. Retribuí com meu mais belo e sarcástico sorriso. “Vai. fala alguma coisa.”, pensava e torcia. Ninguém me olha de cima, me falta o respeito e ainda suspeita de que estou enganando o governo; que já sabe tudo de mim. Não estava nervoso por mim, pelo tratamento que me foi dado, mas sim tocado e enraivecido pelo modo com que os outros foram. Duas vezes, ela se levantou com alguns papéis e foi até a mulher da boca e ficou de cochicho, até mesmo com risadas. Por fim, ela, sem dizer nada liberou-me para avançar para a próxima sala. A sala da matrícula.

         Ás moscas, a sala estava vazia. Duas atendentes conversavam tranquilas. Não estavam fazendo nada, afinal, suas colegas se encarregavam em mandar todos de volta para casa, em busca de novos tesouros à elas. Simpática e atenciosa, a jovem fechou a prestação de contas com um aperto de mão e um “Boa sorte e parabéns”

         Somos despidos e algo mais, para que a declaração dos direitos do homem tenha sentido. Não recebemos ensino suficiente para dar-nos o luxo de negar os maus tratos dos que precisam de nossa presença para receber o pagamento e ingressarmos na universidade pública em disputa desigual com estudantes de cursinho e particulares.

         Nos resta a sorte na vida. Hoje quem nos olha de cima, amanhã pode nos pedir a esmola que tanto fingiu nos dar. Universidade para todos? Sou branco, frequentei a mesma escola que tantos outros negros e índígenas, o mesmo ensino, os mesmos professores; não entrei na Fuvest, não entrei no curso desejado – Prouni. Preciso dizer quem entrou? Fico então com que me resta, quem sabe sou eu o errado.

         Anceio pelo dia em que não precisaremos provar pobreza para estudar. Pelo dia em que nosso ensino se iguale ao que de fato é necessário. Pelo dia em que não haverá Prouni. Dia em que nossos estudantes serão bixos de uma boa universidade pública. Que nossos compatriotas ainda não nascidos se tornem os pensadores e os cientistas que tanto nosso país precisa.

 

Obrigado

Isaac lourenço

 

Sem medo do ridículo, com rapidez e sem lucidez 

        

ps.: 39% das vagas da primeira chamada do prouni não foram preenchidas. Supostamente os candidatos não alcançaram o que era necessário em comprovantes.